DEMOREI A DESCOBRIR O PRAZER DE NAVEGAR SOZINHA

Laura Aquino E Sâmia Louise.

 

Ontem à noite, antes de deitar, olhei-me no espelho, e você não estava lá para tirar meu robe. Me veio a falta de você. E eu, que gosto de ser sozinha, desejei nosso par. E que teu par de mãos pudessem deslizar aquela peça de roupa pelo meu corpo, para que em seguida pudéssemos continuar a brincadeira abraçados na cama.

Eu não consegui dormir, confesso. Abraçada ao travesseiro, quase pude sentir o teu perfume se desprender da roupa de cama. Já faz tanto tempo em que tua respiração alta deixou de ser a minha canção de ninar e o meu primeiro bom dia. Tanto tempo em que o toque leve dos teus dedos parou de estampar a minha roupa de dormir. Por todo esse tempo e todo esse tanto, jurei que meu corpo nunca mais lembraria como é se encaixar ao teu. Mas, ontem à noite, ele se lembrou.

Tuas memórias parecem furtivas. Vêm num ato sorrateiro e retornam, principalmente, quando imagino que já foram sepultadas. Às vezes, tento te enterrar, te jogar fora, te apagar. Mas você sempre aparece de soslaio. De uma forma até serena. De um jeito que não reconheço. De modo que, tudo o que era grande demais, se assemelha a pouco significado. Já não entendo seu poder aqui, pois o mar está calmo, e a falta que sinto de ti não tem feito mais tempestade.

É que eu chovi até a última gota de lágrima quando você se foi. Demorou até que eu me debruçasse pelo parapeito do meu coração e me desse conta de que o céu tinha ficado azul outra vez. E eu, que sempre fui ancorada ao nosso par, descobri o prazer de navegar sozinha.

Hoje a saudade é chuvisco. Ontem à noite, antes de deitar, eu abri meu guarda-chuva para não me deixar molhar. Acordei enxugando os respingos que rebateram em meus pés. De pés secos, continuo a caminhar.

Está tudo diferente. Tendo a ir por caminhos mais sólidos, e a ausência do teu jeito sonhador se esvai pelos meus dedos. Tudo em ti era sonho, não é de todo mal ser assim. É só que eu não consigo mais só sonhar. Menos ainda, sonhar só teus sonhos. É por isso que, hoje à noite, antes de deitar, vou me olhar no espelho de novo pra ter certeza de que eu sou a minha própria realidade. E, ancorada em mim, me basto.

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