A GENTE AINDA BRINCA, MAS INFELIZMENTE NÃO SE DIVERTE

Em parceria com Samuel Aguiar

O prédio de frente ao meu tem uma quadra pintada de verde – dá pra ver da janela da área de serviço. São dois gols, duas cestas de basquete e tantas marcações que eu sinceramente não entendo como as crianças não ficam perdidas. Talvez elas simplesmente não liguem, talvez sejam novinhas demais pra achar que aquelas linhas brancas deveriam significar alguma coisa.

Já há algum tempo tenho dado muita importância pra pequenos detalhes que nunca fizeram diferença. Tô percebendo que ficar perto de crianças passou a me dar uma sensação gostosa de viver e relembrar, de ser inocente e de encontrar a pureza nos momentos. Sem medo, sem máscaras. Os moleques não estão nem aí, sabe? As linhas estão lá e eles ultrapassam, pisam, ignoram.

A gente vai crescendo e criando métodos para a boa convivência, pra isso e pra aquilo. A gente se sabota e esconde as nossas próprias verdades e vontades. Criamos umas regras bobas que parecem sacanear todo o espírito da brincadeira. Às vezes me pergunto se não seria muito mais gostoso se pudéssemos marcar três pontos do garrafão, ou se não seria ótimo gritar pênalti numa falta de meio de campo.

Estar em contato, mesmo que indireto, com todas essas pessoinhas pode nos fazer bem. Ajuda a resgatar a valiosa espontaneidade de ser quem realmente se é. E olha hoje eu sou adulto e, mesmo que pareça estranho, sou ainda mais adulto na medida em que queria voltar a ser criança. É que a gente cresce e percebe que errou. É que as linhas estão lá, e a gente finge que precisa respeitar. É que a gente ainda brinca, mas infelizmente não se diverte.

A gente permanece nessa constância da vida achando que temos que saber do amanhã. Resolver o amanhã e sugamos o hoje como se ele não tivesse importância alguma. E é por isso que, quando olho para as crianças, desejo voltar a ser como elas. Que vivem cada instante sem pensar no próximo. Que brigam, mas cinco minutos depois já resolveram tudo. Que tem mais força pra pedir e insistir no que querem, ou mesmo quando vem cheias de porquês, elas não deixam as dúvidas passarem batidas. Elas se envolvem com o que vem de dentro do coração. E eu, aqui adulto que sou, tenho tentado, incansavelmente, ouvir meu coração e ser mais dele.

Estou em mudança o tempo todo. Não me admira o que fica parado. E a vida insiste em colocar esses pequenos comigo no elevador, com suas conversas alta e a bola debaixo do braço, para me lembrar que estar em movimento é bom. E que observar o mundo é tudo o que eu preciso agora.

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